Mais um agosto de incômodos
Comentei mais cedo com uma amiga que hoje escreveria de maneira leve, livre, sem ficar me cobrando a escrita da dissertação. Praticar o ato de escrever e voltar a colocar minhas palavras no mundo. Só tenho feito isso em janelas de conversação, específicas e intensas, mas ainda assim, conversas e não textos. Percebi, ao entrar aqui, que a pouco mais de um ano, fiz o mesmo movimento: Agosto, um texto sobre fazer as pazes com a escrita. Me li. Me vi num lugar parecido, mas diferente. Me questiono que tipo de ciclo ou prisão seja essa. Espero que Agosto do próximo ano eu esteja reavaliando outras coisas.
Mas sobre isso, tenho pensado muito em como vivo em prisão, limitação, cercos. Tento encontrar de onde veio isso, se de mim ou da minha criação. A resposta não é tão clara assim. Acho que fui uma pessoa que teve e foi ensinado a ter uma visão bem linear e consequencial das coisas, sem entender ou sem pensar na magnitude das grandes possibilidades de vida. Honestamente, me vejo uma pessoa com 32 anos e perdida na vida, fazendo as coisas para preencher as checklists, onde para quem está de fora é massa, afinal eu sou mestrando em uma família em que meus pais tem ensino médio: um metalúrgico e uma vendedora de acarajé. O menino suburbano que é professor, que trabalha de casa, que nunca fez nada para desagradar aos pais. Não nego nada dessas coisas, de fato. Mas até onde cabe tais coisas como positivas?
Eu gostaria muito de não estar mais morando aqui. O convívio tá puxado, é cada vez menos agradável e vejo muitas coisas da vida passando enquanto eu não tenho conforto em fazer; tenho ficado cada vez mais no meu quarto. Não quieto, deitado e sem forças, mas trancado, tentando encontrar o silêncio e concentração para fazer algo, mas são muito ruídos, são muitas faltas de paz interna. Não só isso, mas os espaços em si também. São muitas coisas que me incomodam, casa muito cheia de bregueços, quando eu reclamo eu sou o chato, mas também há incomodos dos outros e falta de praticidade do dia a dia (temos um banheiro ficando inutilizado por excesso de coisas nele), assim como o fato de ter uma pessoa a mais agora, já que minha madrinha mora aqui desde a morte de minha avó.
Nisso, eu preciso escrever uma dissertação, para finalizar esse momento do mestrado e respirar de acadêmia. Que loucura. Nesse processo todo, brevemente fui informado sobre o que era uma dissertação. Acreditei que haveria uma disciplina como "Técnicas de pesquisa" mas, não, foda-se, dê seus pulos. E cá estou nesse momento de angústia. Ah, também tive uma breve expectativa de que meu orientador chegaria junto, seria um parceiro e com trocas e comunicação... Doce ilusão de uma troca de e-mails pandêmicos. Não só há várias camadas nele enquanto pessoa e coisas que soube, mas toda a postura dele em determinado episódio me tirou toda admiração e possibilidade de amizade que tenha cogitado. O repúdio a uma simples matrícula foi a gota d'água.
Sigo com Marjane, sigo em Persépolis, sigo com a vida da jovem iraniana que, infelizmente, também me deixou a dois meses. Foi de tristeza. COnfesso que foi um puta momento ver ela nas mídias, escrevi e tudo, mas ainda foi esquisito não me sentir totalmente pertencente ou confortável em falar a respeito. E acho que posso dizer o mesmo sobre mim. Queria que fosse uma escrita mais otimista, mais leve, mas nesse momento é como me encontro: confuso, com raiva, perdido, parado, inerte. Sabendo que tenho que fazer as coisas, mas como começar?