Aquele Caderno

(Re)visitar - Protagonismo e Phill

Tomar de volta um certo protagonismo é uma missão que constantemente me esqueço e também me é desafiadora. Tenho uma personalidade (ou fui construído) a me esquecer de mim e priorizar o outro de uma forma que, muitas vezes, eu só percebo quando já está acontecendo. Mas estou um pouco cansado disso por sentir que estou voltando algumas casinhas nos avanços dados até então. Preciso diferenciar o que é ser educado, ser solícito e o que acaba me colocando em situações de submissão.

A autoestima tem sido um ponto de tensão e delicadeza nesse sentido. Pensar que minhas qualidades ou até que eu mesmo só tenha algum tipo de valor se estiver sendo útil para o outro tem me pego. Observo que, se eu não fizer o movimento de ir até o outro, raramente o outro vem até mim. Mas por quê? Costume das pessoas? Falta de paciência minha em esperar? Fico refletindo, ao mesmo tempo que muitas vezes, ao testar esse movimento, vi o outro ir embora.

Mas por que é sempre O outro que eu me preocupo? Eu deveria me preocupar com o risco de eu mesmo ir embora de mim. Me tornar a sombra de um outro, de outros, e não ter mais minhas vozes, desejos, momentos. Lógico, há uma questão de segurança por trás disso tudo. Tento me segurar em pessoas, em facilitações para fazer alguns tipos de movimentos, como sair, ter algum lazer, companhias para voltar ou dividir os valores de transporte. Mas será que sempre vou ficar precisando disso?

Fico aborrecido com toda minha criação, no fim das contas. A cultura de medo instaurada me imobiliza, reduz minhas vontades ou potências de fazer. Mas preciso me lembrar que consigo; não só isso, mas que posso, que eu devo. Não quero repetir a vida e processos dos que me cercam, só posso ajudar quem, de fato, quer ser ajudado. Quinta-feira me mostrou isso. O desejo de revisitar um artista que foi importante para mim.

Sair de casa já enquanto arriscava anoitecer, ter uma estratégia de chegar mais cedo no bairro para não me atrasar, buscar forças e um conforto na faculdade, tentar curtir minha própria companhia enquanto lidava com o nervoso. Acho que não só isso, mas também se desprender de um hábito relacional que não tem feito muito sentido: tentar agir na mesma potência. Houve estranhamento da minha parte, de início, mas fui resistente e não senti que fiz nada de errado, até porque não fiz mesmo.

Do show, apesar do nervosismo inicial, de estar buscando uma companhia virtual que era apenas ilusão e desgaste, de observar a todo mundo que estava perto, a busca por conforto em mim mesmo. Era um show meu, para me revisitar e me acolher. Phill foi uma das potências que me ajudou em um dos meus momentos mais baixos, me mostrou que é possível me encontrar, que posso tentar filtrar o que faz sentido para mim no outro e por mim. Phill, Léo e Kevin me mostraram minhas forças para a liberdade. A compra do ingresso do show veio em um momento de busca por essa liberdade. É o que eu procurava na noite daquela quinta-feira.

Me encontrei, encontrei certa calmaria, certo desconforto também em não saber o que ou como agir em um show em pé, mas encontrei minhas emoções: meu choro ao som de Vício, minha alegria ao som de Meu Vão, um desejo que já vinha de tempos, que havia desistido por falta de espaço, em uma companhia de uma amiga.

Mas creio que ainda me encontro naquela noite de quinta-feira, na qual eu saí, sozinho, encarando a cara de preocupação excessiva de minha mãe por eu estar indo para um show, como se fosse um crime, um ambiente extremamente perigoso e que não pudesse ocupar, assim como ocultei o bairro porque essa seria outra questão. Fui o último a conseguir sair da casa de shows, não por desejo, mas pela dificuldade de encontrar um motorista que desejasse vir para o meu bairro, como sempre.

De passo em passo, precisando me lembrar com certa constância, vou me lembrando que eu posso ter atitudes, que eu vou decepcionar pessoas e que eu não sou perfeito, estou longe disso. Eu preciso errar para saber o que faz sentido para mim, se não, continuarei vivendo nesse molde de saber do que não gosto sem nem experimentar ou arriscar. Do que isso me trouxe, espero trazer em outro texto mais a respeito, mas quero que minha próxima escrita seja manuscrita ou nas minhas da minha vida, por enquanto.